Seminário discute mineração e produção de baterias para a transição energética no Brasil
Representantes dos setores público e privado debateram sobre as potencialidades, desafios e importância dos minerais brasileiros para a transição energética mundial.
A Lumine esteve presente no seminário organizado pelo Ministério de Minas e Energia sobre mineração e transformação de minerais estratégicos que ocorreu nos dias 21 e 22 de fevereiro, em Brasília. O objetivo do evento foi promover o diálogo sobre os minerais estratégicos e a janela de oportunidade aberta para o Brasil pela transição energética. O evento também foi transmitido pelo canal do Youtube no endereço https://www.youtube.com/watch?v=mqu69k16k84 (dia 21/02) e https://www.youtube.com/watch?v=wWP5rubZhtM (dia 22/02). A programação pode ser acessada aqui.
Veja abaixo resumo do que foi discutido no dia 21/02:
Bloco 1 – Oportunidades da transição energética para o setor mineral brasileiro
O primeiro painel do evento teve como tema “Oportunidades da transição energética para o setor mineral brasileiro”, com a abertura do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O ministro apresentou o grande potencial para a produção e transformação mineral no Brasil e mencionou as reservas de nióbio, minério de ferro, nióbio e lítio do Brasil como sendo minerais estratégicos para a transição energética e para p fortalecimento a indústria. Em 2023, as exportações brasileiras de minérios foram de US$ 43 bilhões.
A prioridade do Ministério de Minas e Energia é o investimento e apoio à transição energética e a mineração verde e de minerais estratégias , com oferta de crédito para investimentos para a transição energética. Após a abertura do ministro Alexandre Silveira, representantes da União Europeia e da China falaram sobre a o potencial destes mercados para investir no Brasil e comprar minérios e produtos industrializados.
Durante a abertura do evento, o ministro anunciou o lançamento do novo programa “Mineração para Energia Limpa”, que terá como objetivo desenvolver a indústria de transformação mineral e fortalecer o conhecimento geológico e a pesquisa mineral.
Bloco 2 – Desenvolvimento e fabricação de baterias de lítio no Brasil
O debate foi entre representante da WEG, Daniel Godinho, diretor do Instituto SENAI de Inovação, Carlos Alberto Coelho, e Eduardo Javier Muñoz, CEO da Bravo Motor Company sobre a possibilidade do desenvolvimento de baterias de lítio no Brasil e, em especial, sobre a produção de células de baterias. O representante da WEG afirmou que o Brasil tem capacidade de produzir baterias de lítio e imãs de terras raras, pois tem matérias primas e minas com grande potencial produtivo. No entanto, as etapas industriais de refino, produção de células e fabricação das baterias ainda requerem adensamento industrial no Brasil. Para o avanço deste setor, o representante da WEG sugeriu articulação constante por meio da Nova Política Industrial para o avanço da produção brasileira de baterias de lítio e imãs de terras raras.
O representante do SENAI apresentou lista de fabricantes de baterias no Brasil e a cadeia de fornecedores vinculados. Carlos Alberto Coelho afirmou que há uma grande oportunidade para o desenvolvimento da cadeia de baterias de lítio como pesquisa, desenvolvimento, reciclagem e remanufatura.
O CEO da fabricante de automóveis Bravo Motor Company, Eduardo Javier Muñoz, apresentou as perspectivas para o investimento estrangeiro no setor de baterias. O foco da apresentação dos diferenciais do Brasil foram: a) abundância de minerais estratégicos para a transição energética; b) mercado brasileiro amplo e com grande potencial de crescimento e c) energia abundante e limpa em relação a outros países. Apenas o mercado de ônibus no Brasil é de 390 mil unidades, o que traz a escala necessária para o crescimento da produção no Brasil. No entanto, regulamentação, burocracia e a falta de incentivos tributários são desafios para o desenvolvimento desta indústria no Brasil. Por fim, Muñoz informou que a bateria é o coração da nova economia verde e deve ser o foco da parceria entre governo e setor privado para atrair investimentos, gerar empregos e renda no Brasil.
Bloco 3 – A Indústria de Transformação Mineral na cadeia de valor das baterias
O terceiro do bloco do seminário apresentou debate sobre o estágio atual da transformação do lítio no Brasil e o desafio da metalurgia para o desenvolvimento de insumos para baterias. O bloco teve participação de presidente da Companhia Brasileira do Lítio (CBL), Vinicius Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) Ricardo Lima, e o direto de negócios de transformados da Companhia Brasileira do Alumínio (CBA), Fernando Varela.
Com relação ao setor de lítio, o presidente da CBL apresentou o panorama do setor no Brasil. Vinicius Alvarenga destacou o potencial das minas de lítio no Brasil, que tem baixa pegada de carbono, e da transformação em produtos de alto valor agregado da indústria energética e digital. A mineração do lítio no Brasil e o projeto do Vale do Lítio, em Minas Gerais, tem avançado e usado tecnologias inovadoras como o uso do raio X para identificar áreas com maior potencial mineral. A CBL tem operações nos municípios de Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha. Na cadeia das baterias de lítio, o Brasil tem tecnologia para mineração e produção de espodumênio (mineral que é a principal fonte do lítio com concentração de 3,7%) e para a etapa de produção do carbonato e hidróxido de lítio. As etapas posteriores de fabricação dos catodos e células de energia são intensivas em tecnologia e robóticas. Na sequência da cadeia produtiva está a fabricação de baterias e peças e, posteriormente, a produção de veículos elétricos.
A produção brasileira em 2023, de acordo com a CBL, foi de 1,0 milhão de toneladas de espodumênio (mineral com lítio), o que seria suficiente para fabricar 4,8 milhões de veículos eletrificados no Brasil por ano. Estima-se em média que cada veículo elétrico necessita de 120 quilos de espodumênio. Ou seja, há oferta de lítio no Brasil em abundância para produção local de baterias e outros produtos e para exportação. No entanto, ainda não há demanda para usar o produto por parte das montadoras e fábricas instaladas no Brasil.
Com relação ao nióbio, o CEO da CBMM, Ricardo Lima, apresentou o panorama do setor de nióbio como um dos metais estratégicos para a transição energética e que tem aplicações na indústria petroquímica. A CBMM é líder mundial na fabricação de produtos de nióbio e exporta para mais de 50 países com participação de cerca de 80% do mercado. O destaque foi a exposição do uso de nióbio em células de lítio de baterias de carros elétricos o que permite uma recarga mais rápida e diminuindo significativamente o tempo de carregamento.
Veja abaixo o resumo do que foi discutido no dia 22/02:
Bloco 4 – A produção brasileira de minerais estratégicos para a transição energética.
O secretário de geologia, mineração e transformação mineral, Vitor Saback, fez a abertura com a apresentação sobre a descarbonização da matriz energética como o principal indutor do crescimento do setor de minerais estratégico como lítio, cobre, cobalto, níquel e terras raras. Entre as prioridades do Ministério de Minas e Energia estão: a) priorização na análise de atos de outorga de pesquisa mineral e lavra de minerais estratégicos, b) oferta de crédito por meio de bancos oficiais, c) promoção de oportunidades de investimentos em mineração no Brasil, d) desenvolvimento da infraestrutura, e) fomento à pesquisa, inovação e formação de mão de obra e f) desenvolvimento de políticas públicas sobre responsabilidade ambiental.
Após a abertura, foi realizado um debate sobre a produção brasileira de minerais estratégicos para a transição energética com participação do diretor de operações da Vale do Rio Doce, José Luis Marques, a CEO da Sigma Lithium, Ana Cabral, o CEO da Mineração Serra Verde, Thras Moraitis, e Debora Matos, pesquisadora do Serviço Geológico Brasileiro (SGB).
José Luis Marques apresentou a criação da empresa Vale Metais Básico, que visa destravar valor para a mineração de materiais estratégicos de baixo carbono para a transição energética. O diretor destacou o cobre e o níquel como os metais básicos produzidos pela Vale para a transição energética e que devem ter a demanda impulsionada pela eletrificação de automóveis e pela expansão do mercado de energia eólica e solar. No Brasil, o desafio é aumentar a produção de cobre e níquel nas minas brasileiras e negociar parcerias no exterior para desenvolvimento de minas destes metais.
Na sequência, ocorreu a apresentação da CEO da Sigma Lithium sobre a produção brasileira de lítio e as vantagens da produção brasileira em comparação à outros grandes produtores. As operações da Sigma Lithium no Brasil estão localizadas nos municípios Araçuaí e Itinga do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais. De acordo com a CEO da Sigma Lithium, Debora Cabral, o mercado de lítio no Brasil tem três características fundamentais: a) escala e a 4ª maior complexo industrial mineral do mundo, b) produto competitivo e custos eficientes de produção e c) produção mineral mais sustentável e com baixo impacto ambiental. Debora afirmou, ainda, que o Brasil tem ganhado mercado no exterior, enquanto os concorrentes tem saído do mercado internacional por conta do preço internacional mais baixo recentemente. Atualmente, a produção é de 270 mil toneladas por ano de concentrado de lítio grau bateria. O Brasil é competitivo na produção de lítio, pois é carbono zero, usa 100% de energia renovável, menor quantidade de água e os rejeitos são empilhados a seco. Tais características permitem o Brasil a ganhar mercados nos próximos anos. A produção de lítio em bruto tem como preço US$ 15 a tonelada, mas após o beneficiamento para a produção de bateria a mesma tonelada passa para US$ 1.100.
Sobre terras raras, o CEO Thras Moraitis da Mineração Serra Verde, que tem sede em Minaçu no estado de Goiás, apresentou panorama da produção brasileira e informou que sua planta iniciou produção em janeiro de 2024. A capacidade produtiva anual é de 5 mil toneladas por ano, o que coloca o Brasil como um dos principais players fora da Ásia na produção de terras raras.
Bloco 5 – Apoio oficial à transformação de minerais estratégicos no Brasil
O diretor Walter Baere do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) falou sobre as políticas públicas para o financiamento da expansão da cadeias de inerais estratégicos e terras raras para a transição energética. O BNDES tem linhas de financiamento para o desenvolvimento de soluções para apoiar o investimento em cadeias de minerais estratégicos e transformados de alto valor.
Bloco 6 – Políticas públicas e a expansão da ofertas de minerais estratégicos
Neste bloco estiveram presentes Mauro Sousa, diretor geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Lucia Travassos, representante da Sociedade Geológica Brasileira, Marcos André, diretor da Agência de Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (ADINE) e Edimilson Maturana, coordenador de Licenciamento Ambiental do IBAMA.
Mauro Souza, diretor geral da ANM, explicou um dos principais gargalos é o processamento de licenças de pesquisas e lavras para os minerais estratégicos como lítio, nióbio, cobre e terras raras. Atualmente, a ANM tem mais de 20 mil requerimentos de pesquisas pendentes e 19 mil requerimento de lavras em análise. O prazo médio de análise é hoje de 10 a 12 anos. A redução deste período é uma das prioridades da ANM e está sendo tratada com simplificação dos processos de análise e disseminação de soluções tecnológicas na agência. Outra prioridade é a agenda regulatória do setor mineral que está em constante evolução, e visa simplificar o ambiente regulatório do setor mineral.
O Brasil tem hoje oportunidade para aproveitar a demanda por minerais estratégicos e formular políticas e regulamentação que incentivem a produção e industrialização no país.
